Redescobri recentemente o poder da distância e da saudade.
Normalmente evitadas e encaradas como algo potencialmente negativo.
Eu descobri que, na dose certa, pode ser um restruturador de relações.
Muito se fala sobre os efeitos do tempo e das rotinas nas relações amorosas. E eu acho que é quase considerado de senso comum que esses factores podem ter um papel degradante na vida de duas pessoas. A rotina e o convívio trazem ao de cimo o nosso lado real, de sermos todos pessoas que precisam do seu espaço e tempo, de termos ritmos de tempo diferentes, de termos zonas de conforto diferentes, de termos as nossas manias/rituais muito próprios, de não lidarmos bem com todos o tipo de programas e tarefas conjuntas, de não querermos abdicar do que é nosso pelo outro ou nem sempre estramos disponíveis para agradar e dar o nosso melhor, de termos diferentes humores que só nós conhecemos e aceitamos e o outro pode não aceitar da mesma forma. São tantas as questões e as condicionantes.
O que é certo é que no meio social e cultural em que eu vivo, as pessoas quando se gostam adotam um sistema que não é necessariamente reflectido ou com o qual se identifiquem mais, julgo eu, mas a verdade é que adotam e não sei se resulta, estatisticamente pela percentagem de divórcios e separações não parece funcionar. Desde que a relação amorosa começa a florescer que as pessoas vivem e dão demasiado e demasiado rápido até. Constrói-se um elo tão intenso e tão rápido, uma entrega total, como se tivéssemos a depositar no outro tudo aquilo que temos de melhor para dar, essa intensidade e entrega não é medida nem doseada e isso provoca logo pontos de quebra - acelera-se o ponto desgaste, rotina ou estagnação.
Independentemente de como se chega ou entra numa vida rotineira de casal, isso mais cedo ou mais tarde acaba sempre por acontecer - ou porque se vive junto, ou porque se tem filhos em conjunto, ou porque se dividem as despesas, etc. A diferença está no esforço e dedicação das pessoas à relação, que vem sobretudo dos valores e da vontade das pessoas em manterem essa relação.
Hoje em dia reflito muito sobre esta questão, porque vivo com o meu parceiro e com o meu filho e porque culminaram vários factores que me fizeram entrar em rotina, inevitavelmente. Percebi que viver junto é muito diferente de namorar - e que namorar é apenas o lado leve e cor de rosa da questão.
Viver junto trás o pacote completo da outra pessoa e, não existe nenhum pessoa no mundo que não tenha o seu lado bom e o seu lado mau.
O que eu coloco no centro da questão é - quem somos nós e o que pretendemos da vida? Qual é a nossa postura relativamente ao amor, o que queremos, o que esperamos e o que é que estamos dispostos a dar. Tudo não passa de um exercício que temos de saber conduzir, os nossos valores e ambições ditam a nossa preserverança e dedicação. O espírito de sacrifício vem da nossa vontade.
Eu olho para os meus exemplos, a minha avó que viveu para a família e para o marido e que diz ter sido o grande amor da vida dela e ter sido feliz. Houve muita cedência, muita anulação de identidade, muitas desculpas e muita aceitação, mas sobretudo houve muita vontade - e até à morte do meu avô, nesta relação eles souberam ser felizes. Alguém cedeu.
Por outro lado temos a maioria das relações actuais, divórcios passado alguns meses ou anos de casamento, muitas mães solteiras, etc. É o paradigma da vida moderna - o homem e a mulher são iguais em todos os níveis, confrontam-se e é quase inevitável isso não acontecer. Também há muitas tentações e relações fáceis. As mulheres e os homens estão disponíveis e existem vários sitios onde quem procura pode facilmente encontrar. Só está sozinho quem quer ou quem não procura. Daí também não haver valor tão rígidos como antigamente porque com tanta oferta e variedade as próprias pessoas não sabem onde querem estar ou ficar. Quando começa a apertar, têm o caminho fácil de recomeçar noutros lados e podem passar uma vida inteira no recomeço, não criando laços profundos.
Eu prefiro acreditar no meio termo. Prefiro acreditar que é nesse sentido que caminho. Que me decidi tornar mais humilde e aceitar que estou a aprender a crescer nesta relação e que a disponibilidade do outro lado me faz disponibilizar ainda mais de mim e que pode desenvolver-se uma amizade solida, uma compreensão mutua e acima de tudo repeito. Aceitando que a vida não é cor de rosa apesar de tantos factores externos nos quererem fazer acreditar que sim, que ali é melhor. Aceitando que há dias menos bons e que há dias muito bons. Aceitando que conversando podemo-nos entender e até sensibilizar o outro a compreender-nos, no futuro com o trabalho, verse-ão recompensas e acima de tudo cumplicidade e apego.
Por isso digo que redescobri a distância e a saudade.
Sem querer, já quase sem me aperceber do que o tempo todo juntos faz da nossa relação - houve um trabalho esporádico que fez com que passasse alguns dias sem te ver, algumas noites e isso aconteceu e foi acontecendo durante algum tempo.
Fui tendo percepções diferentes, consoante as situações e o que isso implicou e felizmente percebi que o bom está em tirar partido das circunstâncias.
Muitas vezes pensamos no que podemos dar mais de nós para esta causa e se tivermos oportunidade devemos pensar em aproveitar as situações em que a vida nos coloca, nessa mesma relação e saber tirar o proveito certo delas.
Eu pensei, eu reflecti, e concluí algumas coisas, depois eu senti falta, depois eu pensei novamente e depois vieram as saudades e depois veio o valor das saudades! E que bom que é ter saudades, refecte-se, reavalia-se e renova-se e nasce uma nova vontade de recomeçar.
Com isto eu percebi que pode haver várias maneiras na vida de caminhar para o ponto certo, como a saudade, basta querer.
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