Dou por mim algumas vezes, ao sabor das noites em que o meu filho adormeceu e eu, por mais cansada e com a cabeça a estourar que esteja, a ter de aproveitar aquele bocadinho para fazer alguma coisa por mim mesma.
Tornou-se tão natural esta sensação e agora que o tempo passou (quase 3 anos), olho para mim e vejo como se tornou esta a minha companhia.
Uma sensação de exigência que acho que acabou por se apoderar de mim ao longo do tempo. Ao princípio completamente inconsciente e intuitiva, fruto do meu amor e dedicação. Com o passar dos anos, percebo que apesar de dar mais de mim como alguma vez dei em toda a minha vida a causa alguma, existe dentro de mim uma 'senhorazinha' de seu ar altivo que consegue sempre dizer-me e fazer-me sentir como se não fosse o suficiente - como se me apontasse o dedo para a frente e dissesse 'ali está o mais e o melhor, caminha para lá!'.
E assim estou eu no meio de tais pensamentos quase absurdos mas que tanto me fazem companhia... Há coisas que simplesmente deixei de tentar explicar aos outros porque acabam por se tornar tão nossas, fruto das circunstancias e dos momentos, acabo por pensar e rir cá para os meus botões tantas vezes, e quando a coisa entra em sintonia até que se pode tornar gratificante!
Eis que esse curto espaço de tempo em que posso fazer alguma coisa por mim se pode tornar um tanto que angustiante, quando acontece inesperadamente e não tenho nenhuma tarefa doméstica ou obrigação em fila de espera. Aí entro num corrupio de ideias paradoxas, de ver um filme e tentar escolher o best seller que saiu do cinema à pouco tempo e ainda tenho que ir pesquisar qual é; ou escolher um livro muito interessante para começar a ler e que é bom que me entretenha de forma intensa nas próximas horas das sestas; e de repente lembro-me da depilação que ficou por fazer e se calhar é a melhor altura para isso porque até vou ter natação no fim dessa semana ; e também me lembro do armário que ficou por arrumar (no outro dia fiquei a meio a troca de roupas da estação); e/ou da garagem com as roupas que estava a selecionar para doar e que estão a ocupar tanto espaço. Uff...
Ás vezes começo-me a sentir estranha, quase que tenho que respirar fundo para aliviar a pressão - afinal tenho aqui um tempinho para mim e estou aqui a martirizar-me como hei de aproveitá-lo. Respira fundo, é o que penso.
Algumas vezes consigo ver um filme até ao fim e quando até é um bom filme, aí sim consigo sentir-me animada em como foi bom ter um bocadinho para mim para atualizar a cultura cinematográfica e a ronha a que tenho direito; outras vezes sinto-me irritada em como o que escolhi não fez juz ao tempo sagrado que dispunha e fiquei a pensar que se calhar deveria era ter ido desarrumar a loiça da máquina e descongelar a comida para o jantar.
Outras vezes acabo por ligar o telejornal e pensar - faz-te bem saber o que se passa lá fora, as questões do mundo que tantas vezes já não estou a par ou então ligar o facebook e sentir que ao ver os afazeres das pessoas estou mais próxima do mundo e de uma vida social mais activa.
Outras vezes, quando estou mais emotiva e nostálgica, agarro no telefone e mando mensagens lamechas às minhas amigas e sinto-me bem por ter sido iniciativa minha e por estar a manter e a investir na amizade naqueles momentos, algo que tantas vezes acabo por me esquecer de fazer. Aquele momento pode-me tirar as culpas de cima às vezes até por algumas semanas a fio.
No que me tornei?
Por vezes é estranho encarar esta realidade. Depois de pensar sobre isto como pensei algumas vezes em breves fragmentos nos últimos anos ou libertando de dentro de mim este texto e relendo-o até esta última frase, penso em que pessoa estranha me tornei ou em que momento é que deixaste de pensar em ti e na tua vida e te deixaste para último.
Depois penso que há qualquer coisa que não pode estar bem, se fosse só este o único lado da questão.
Levanto a cabeça e reflito um bocadinho mais a fundo.
Penso na pessoa paciente em que me tornei, na pessoa forte, determinada e não desistente. Penso no valor que comecei a dar aos que estão à minha volta - em como comecei a ouvir as palavras da minha mãe que antes simplesmente ignorava, em como comecei a amar a minha avó que apesar de repetitiva se tornou um grande exemplo de valor, em como comecei a ligar ao meu pai à procura da sua presença e companhia, em como comecei a pensar em estar com a família do meu companheiro porque ele se sente bem perto dela e porque também se tornaram a minha família. Penso em como vou ajudar a minha empregada a arrumar a casa mesmo que esse seja o único momento do dia que tenho para me sentar no sofá a descansar. Em como me tornei poupada nas compras do supermercado e ainda mais - em como comecei a ser a chata da família que só quer comprar coisas saudáveis porque fazem bem e insisto que devíamos comer mais.
Realmente uma pessoa pensa sempre muito sobre as suas questões muito próprias e na verdade estamos sempre a relativizar aquilo que foram as nossas conquistas, ainda que estas sejam pequenas - certamente são mais grandiosas que as questões que colocamos ao longo do dia ou as nossas frustrações.
O que eu sinto com tudo isto é que devemos por as ideias em ordem, sermos verdadeiros para connosco e aceitarmos a nossa realidade. Quando começa a pesar demais, devemos talvez despejar o saco da forma que melhor sabemos ou então fazer um exercício de contra-balançar os males com as coisas boas que adquirimos.
A verdade, verdade é que para mim este foi um bom começo. Escrevi, constatei e expus e agora sinto-me leve para me poder libertar destes pensamentos por um longo espaço de tempo e ir dormir uma boa soneca bem tranquila, como não faço à muito.
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