segunda-feira, 3 de novembro de 2014

As nossas memórias...

Mesmo antes de criar este blog, já seguia um blog que simplesmente admiro, chama-se Eu, Ele, a Maria e o Miguel. Foi difícil para mim criar o meu blog, ou pelo menos publicá-lo - só o publiquei passado um bom tempo de começar as escrever as publicações. E fi-lo porque pensei que até pode só contribuir para mim mesma, para o Fred e para o meu filhote - para um dia podermos recordar memórias engraçadas e momentos ou pensamentos que passámos e tivemos. Foi difícil porque apesar de ter sempre sido uma pessoa determinada, com as minhas ideias próprias e considerada até irreverente e original - hoje em dia, depois de ser mãe e as minhas emoções mudarem e coincidindo com um mundo tão acelarado e evolutivo que começou a deixar de passar por mim e a passar-me ao lado - tenho sempre medo e insegurança de ser mais uma, de ter perdido a graça, de não conseguir ser genuína por toda a pressão exercida de todas as coisas magnificas que vemos à nossa volta. Quer vindas das pessoas, quer da evolução social. Tenho sempre medo de não contribuir em mais nada para o 'mundo dos outros', como já contribuí outrora.
Agora tenho uma família, e para uma mãe que vive e sente esse papel - trabalhando ou não trabalhando, vivendo menos ou mais para si mesma, vivendo apenas para os filhos e a família - sei que o 'mundo' à volta passou a ser diferente. Deixou de ser nosso, deixamos de ser detentores do mundo e das experiências dele. Podemos esforçar-nos e viver bocadinhos dele que nos sabem tão bem. Mas nunca mais iremos sentir que vamos mudá-lo. Existe um amor maior que veio de dentro de nós e que permanece como a maior exigência e reciprocidade das nossas vidas. Talvez isto signifique maturidade ou talvez tenha a ver com o sentido de responsabilidade e o amor de ser mãe ou até tudo junto e misturado.
Pelo menos, tendo entrado neste mundo dos blogs, tive conhecimento e cresci ao ler e aprender ideias e pessoas fantásticas. Este blog, o qual vou deixar aqui o link de um post que me inspirou a escrever o que vem a seguir, é de uma genuinidade e de uma verdade incrível - uma mãe que é fiel ao seu amor, às suas origens e aprendizagens e que consegue com isto tudo dar sempre o melhor de si própria a cada momento da sua vida. Consegue-se desligar de todos os bloqueios externos da vida e ter a beleza de construir uma família verdadeiramente 'Portuguesa' nas suas raízes e tradições. Admiro-a e, nem eu, nem ela me conhece. Mas acho que todos deviam lê-la e aprender, como eu aprendo a desligarmo-nos mais daquilo que não interessa.

http://www.eueleeamaria.blogspot.pt/search?updated-max=2014-10-15T08:58:00-07:00&max-results=7&start=6&by-date=false

Depois deste post inspirador, decidi relembrar as minhas memórias bonitas ou tristes de infância, de me entregar pela escrita e viajar a tempos que por alguma razão especial ficaram bem registados e guardados dentro de mim:

Não sei se é na vida de todos, aliás há pessoas que nem nunca os conheceram ou que até possam ter conhecido e ter tido más experiências. Os meus avôs foram das pessoas mais marcantes da minha infância.
Do meu 'avô Leite' lembro-me dele com todos os meus sentidos mais apurados, lembro-me do cheirinho da sua agua de colónia quando chegava de manhã à sala da nossa casa de férias, de braços abertos à espera que os netos corressem e o abraçassem. Lembro-me das bolas de berlim e das carcaças quentinhas que trazia para o nosso pequeno almoço. Lembro-me de brincarmos aos gambozinos na piscina (eu nem sabia que eles não existiam), lembro-me de ele ter posto baloiços no jardim para nós brincarmos e lembro-me de acamparmos nesse jardim e as tendas ficarem cheias de piolhos e terem de ser deitadas fora. Lembro-me de tomar banho com os meus primos todos na mesma banheira, eram vários turnos - porque eramos muitos. Lembro-me das nossas mães catarem-nos os piolhos todas em fila, sentadas nas camas. Lembro-me do cheiro do champô 'quitoso'.
Lembro-me dos almoços lá fora com peixinhos da horta, salada russa, pescadinhas de rabo na boca. Lembro-me dos individuais de plástico com imagens de frutos. Lembro-me da Té - mãe da nossa avó emprestada. De ser velhinha e de lhe irmos sempre falar de manha e antes de ir para a cama. Lembro-me de fazermos cabanas no pinhal e da minha mãe ser a melhor mãe de todas. Que alinhava sempre em tudo aquilo que gostávamos - nas cabanas, nos passeios nos bosques, nas brincadeiras. Lembro-me de andarmos de bicicleta sem mãos e nos sentirmos livres a andar nas estradas alcatroadas. Lembro-me de termos respeito pelo tio João, que nos fazia comer com as costas direitas e os punhos na mesa. Fazia-nos sempre comer o que não gostávamos. Lembro-me de vermos cassetes no video da sala - os clássicos da Disney, lembro-me dos jogos sem fronteiras que eram o delírio. Lembro-me de nos portarmos mal com a 'Clara' que tomava conta de nós quando os adultos iam jantar fora.
Lembro-me do fogo de artifício que o avô lançava no jardim nas festas de verão e lembro-me de esconder ovos no meio das flores na páscoa para nós procurarmos.
Deste avô e desta família, lembro-me essencialmente de sermos unidos e vivermos bem - eramos todos tão felizes. O Natal ficou marcado para sempre como o melhor Natal, tinhamos mesas cheias de comida, do melhor que se pode ter. Tinhamos sacos de presentes para cada um dos netos, cheios de brinquedos pensados para cada um de nós, daquilo que mais gostávamos. No fundo do saco havia milhares de chocolates que davam para o ano quase todo. O dia de Natal era o melhor dia no ano - faziam-nos sonhar e crianças e adultos viviam em fantasia. Lembro-me do avô cansado, adormecer no sofá, com os seus cigarros castanhos compridos e uma cinza gigante que caía para o chão. Era médico Obstetra, uma boa pessoa, todos gostavam dele. Cometia excessos na saúde. Por volta dos meus 12 anos, perdi o meu avô. Caiu um grande pano escuro e pesado com essa morte. Durante alguns anos, à sua memória, ainda vivemos unidos - passado uns anos, quase todo esse lado da família se desmoronou. Dois divórcios, morte de um tio (3 casais desfeitos). Ainda vivemos unidos, os que ficaram mas apesar do esforço para estarmos felizes, nada se compara àquilo que passamos um dia todos juntos.

Outro grande Avô. O meu avô Alcino. Dizem que temos sempre preferências na vida mas muitas vezes não somos capaz de admitir. Este meu avô foi a minha grande luz.
Vivíamos na casa ao lado. Ele ficava com o maior sorriso de felicidade cada vez que eu entrava na porta da sua casa. Era notório. Eu era a neta mais velha, bonita, loirinha de olhos azuis, meiga - eu sei que ele me adorava. Dizia que eu iria ser miss portugal e eu sempre acreditei - porque o que ele dizia estava sempre certo!
Levava-me sempre ao ballet e comprava-me sempre o lanche no frutalmeidas, a tarde de maçã, um pastel e um sumo, o que eu mais gostava. Ía sempre ver os meus espectáculos, na primeira fila.
Brincávamos aos cabeleireiros, deixava-me sempre penteá-lo. Ajudava-me a fazer os trabalhos de casa e levantava-me a voz quando via que estava desinteressada ou desleixada.
Criou uma parede do quarto das duas camas onde media a altura dos netos todos, desde pequeninos até ter tido lucidez.
Lembro-me uma vez que foi viajar e sabia que eu adorava as spice girls, trouxe-me um postal, estava  todo contente a achar que eu ía ficar radiante. Não eram as spice girls, eram umas top models, mas eu nunca lhe disse e ele ficou feliz por me ter feito feliz.
Ensinou-me a nadar e a melhorar o meu estilo. Insistia no crol e mariposa. Ía sempre também connosco para dentro de água brincar. Na praia ensinou-me a fazer o pino e a roda, eu não tinha muito jeito.
 Fizemos tantas viagens de carro, com a avó e os meus pais também - conhecemos o país todo. O avô tinha sempre muita calma, não tinha horas, chegava atrasado, ficava a conversar com as pessoas todas em todo o lado. Todos o conheciam e gostavam dele. Levava-me ao banco com ele e dizia que eu era 'a mais bonita'.
Amava a família, acarinhava os filhos e os netos. Era um galã, charmoso e comunicativo. Enchia uma sala, todos queriam ouvir as suas histórias. Sempre bem disposto. Gostava de bife do lombo quase cru e odiava ervilhas, lembro-me. Lembro-me de chorar quando era pequenina na cama à noite, a pensar que um dia o iria perder. E perdi, mais tarde quando tinha 14/15 anos. Apagou-se a maior estrela do meu céu. Teve doente muitos anos e vi-o decair, teve um AVC. Odiei vê-lo sofrer e sentia-o a cada dia. Houve dias que desejei que morresse porque não queria vê-lo assim e senti-me uma bruxa má por desejar isso à pessoa que mais amava no mundo. Um dia ele partiu, eu estava por perto. Foi no quarto onde ele escrevia as nossas alturas na parede. Eu rezei muito e deixei-o partir em paz. Ele precisava. Sofri muito e cresci, prometi a mim mesma ajudar a minha avó e a minha mãe. E hoje em dia continuo firme, ao lado delas - e às vezes com rabugices, a dar todo o meu amor.

Fui muito feliz na minha infância. Na adolescência tive perdas que me marcaram e destruiram alicerces em mim. Agora sou adulta. Guardo os exemplos, os valores, as experiências que vivi e tento dar o meu melhor para que aqueles que estão à minha volta possam sonhar e viver o sonho que eu um dia vivi. Vivo para as minhas luzes que são o eu filho, a minha mãe, a minha avó, o meu pai e o Fred.
Ser adulto não é fácil para ninguém, principalmente nos tempos de hoje. Mas quando perco as forças lembro-me dos meus pilares e daquilo que foram até partirem e, se me mantiver sempre lúcida, vou tentar ser igual, até um dia partir eu também.

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